Duas concepções – uma mesma comunhão


Há poucos dias, completamente chocados, nos solidarizamos com amigos e parentes das 50 pessoas que perderam suas vidas nos EUA apenas porque o atirador não as aceitava, conforme declaração de seu pai ao canal de TV “NBC”: “Isto não tem nada a ver com a religião”, citando comportamentos homofóbicos.

Eu já havia me preparado para escrever sobre alguém que ousou ser diferente e deixando bem claras suas convicções políticas e religiosas, sim – fez a diferença!.  Estou falando de Muhammad Ali.  Vocês podem estar se perguntando o porquê estou falando sobre ele.  Explico:

Nascido em 1942 – descendente de irlandeses, ingleses e de escravos afro-americanos – foi batizado com o mesmo nome de seu pai, que já havia sido batizado em homenagem a um abolicionista (Cassius Marcellus Clay – branco e cujos pais eram donos de escravos no Kentucky – EUA).  Aos 12 anos foi visto pelo chefe de polícia e instrutor de boxe batendo num ladrão que roubava sua bicicleta e foi, por orientação dele, aprender boxe.  Em 1960 ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Roma.  Seu record amador foram 100 vitórias com apenas 5 derrotas.

Agora, vocês devem estar se perguntando o que um esporte tão violento tem a ver com preconceito e discriminação.  Pois bem, acredito que apenas as pessoas de espírito forte, alma transparente e com pensamentos intensos, são capazes de enfrentar situações adversas sem esmorecer.  Essas são as pessoas que sofrem as consequências de seus atos com a devida resignação.  Seria de se esperar que um lutador de boxe não deixasse passar uma oportunidade de por em prática suas habilidades.   Mas Clay preferiu a prisão a ser enviado à guerra.  Preferiu ver seus sonhos, sua profissão e sua vida tolhida a viver a violência da guerra, a matar sem um motivo que o convencesse.  “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra eles?” Foi avisado que se recusasse seria punido e, apesar de ser uma pessoa pública e reconhecidamente valoroso em seu esporte, aceitou sua punição. Enfrentou os tribunais e foi para a cadeia.

Sua resposta ao país foi:

– “Por que me pedem para vestir um uniforme e me deslocar 10.000 milhas para lançar bombas e balas no povo marrom do Vietnã, enquanto os negros de Louisville são tratados como cachorros, sendo-lhes negado os mais elementares direitos humanos?  Não, não vou viajar 10.000 milhas para ajudar a assassinar e queimar outra nação pobre para que simplesmente continue a dominação dos senhores brancos sobre os povos de cor mais escura mundo afora.  É hora de tais males chegarem ao fim.

Fui avisado que essa atitude me custaria milhões e dólares.  Mas eu já disse isso uma vez e vou dizer de novo.  O inimigo real do meu povo está aqui.  Não vou desgraçar minha religião, meu povo ou a mim mesmo tornando-me um instrumento para escravizar aqueles que estão lutando por justiça, liberdade, igualdade…

Se eu pensasse que a guerra traria liberdade e igualdade a 22 milhões de pessoas do meu povo, eles não precisariam me obrigar, eu me juntaria a eles amanhã mesmo.  Não tenho nada a perder por sustentar minhas crenças.  Então, vou pra  a prisão, e daí?  Nós estivemos na prisão por 400 anos.

Foi destituído de seus títulos, banido do boxe por três anos e meio e condenado a cinco anos de prisão.  Em 1971 a Suprema Corte anulou a condenação e ele pagou uma multa de 10.000 dólares ao governo. Converteu-se ao islamismo aos 22 anos e recebeu do fundador da Nação Islã – Elijah Muhammad –  o nome de “Muhammad Ali”.  Em 1981 abandonou o esporte, após ter participado  de 61 lutas, vencido 56, das quais 37 foi por nocaute.  Em sua luta contra o racismo, Ali se relacionou diretamente com Martin Luther King, Malcolm X e Nelson Mandela. Viajou em 1990 ao Iraque para negociar com Saddam Hussein a libertação de 14 reféns norte-americanos.  Foi diagnosticado com graves sintomas de mal de Parkinson aos 42 anos, mas, a doença só ficou evidente em 1996 quando foi convidado para acender a tocha olímpica na abertura das Olimpíadas de Atlanta.

Muhammad Ali recebeu os prêmios de Atleta do século pela revista Sports Illustrated;  personalidade esportiva do século pela BBC;  foi nomeado Mensageiro da Paz pela ONU e condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade – maior honra civil norte-americana.  Faleceu aos 74 anos em 03 de junho de 2016 recebendo uma cerimônia islâmica tradicional em 09 de junho, marcada por orações e discursos sobre sua trajetória, diante das 15 mil pessoas que participaram do funeral em Louisville.

Se pensarmos friamente veremos a controvérsia dessa história:  um homem que ganhou valores  milionários levando a nocaute (por esporte) homens que mal conhecia, se recusou a lutar de verdade quando deveria matar quem também não conhecia, na defesa de seu país.  Nascido em Kentuchy de uma família pobre e convertido ao islamismo  aproveitou seu tempo banido do boxe para palestrar em universidades e escolas no país sobre a guerra, direitos civis dos negros e suas vitórias no boxe (um esporte considerado por muitos de violento e inútil) mas Ali soube utilizar sua imagem para uma luta pessoal contra o racismo, igualdade e ações filantrópicas.

Controverso sim, mas só ouvindo suas mensagens é que temos a real noção de sua importância para o mundo que vivemos:

– “A força de vontade deve ser maior que sua habilidade.”;

  • Aquele que não tem coragem de assumir riscos não alcança nada na vida.”;
  • Eu não vou lutar na guerra do Vietnã. Eu não tenho problema algum com os vietnamitas… Eles nunca ofenderam minha raça ou minha cor.”;

É a falta de fé que faz as pessoas terem medo de aceitar desafios, e eu acredito em mim mesmo.”;

  • O homem que não tem imaginação, não tem asas.”;
  • Campeões não são feitos em academias. Campeões são feitos de algo que eles têm profundamente dentro de si – um    desejo, um sonho, uma visão.”;

– “O homem que vê o mundo aos 50 anos do mesmo modo que via aos 20 anos, perdeu 30 anos da sua vida.”

Deus não coloca um peso nos ombros de um homem se souber que ele não pode carrega-lo.”;

Após acompanhar o funeral Dave Zirin, editor de esportes da revista The Nation e autor de um livro sobre Ali, declarou:

– “Este funeral é, em vários aspectos, o último ato de resistência de Muhammad Ali, porque faz o país se juntar para honrar o mais famoso muçulmano do mundo, no momento em que um candidato presidencial concorre com um programa marcado por um bigotismo (falsa devoção)  abjeto contra o povo muçulmano, e o outro candidato é alguém que orgulhosamente tem apoiado as guerras no Oriente Médio.”

Finalizando, Muhammad Ali lutou em duas formas durante sua vida.  Uma delas por amor ao esporte que, através de dedicação, empenho  e perseverança conquistou o reconhecimento e popularidade necessários para sua outra luta, em favor dos perseguidos e dominados.   Talvez se mais pessoas formadoras de opinião, mobilizadoras sociais tivesssem o mesmo empenho que Ali, não teríamos assistidos incrédulos a mais um massacre de inocentes.  Enquanto um muçulmano sofreu as consequências legais e sociais (durante uns de 60 anos de sua vida), outro muçulmano (desequilibrado e louco) foi responsável (em apenas alguns minutos) pelo pior ataque de tiros da história no mesmo país.

Temos participado de vários encontros inter-religiosos e tenho sinceramente a esperança de que um dia possamos nos sentir todos iguais, mesmo defendendo nossas desigualdades.

Fiquem com a Paz de Oxalá

Pai Ronaldo Linares

Artigo Publicado no Jornal da Aldeia – Edição 54  

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