Diferenças entre Umbanda e Candomblé é tema de palestra na UNIFESP


Dia 18 de setembro 2018, eu atendi com satisfação ao pedido da professora Luciana Farias da UNIFESP Diadema e fiz uma palestra sobre as diferenças entre umbanda e candomblé para os estudantes do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas, através da disciplina Meio Ambiente – Questões Étnico-raciais. Uma oportunidade incrível de levar a juventude conhecimentos históricos sobre nossa cultura e conceitos sobre as religiões de matrizes africanas, contribuindo assim para a expansão do conhecimento acerca do tema. Assim como o Professor Vagner Silva da USP, que já levou dezenas de estudantes da disciplina Antropologia das Religiões ao Santuário Nacional da Umbanda, em breve será a vez dos estudantes da professora Luciana, que também visitarão o Santuário para conhecer de perto esse Espaço Sagrado.

Iniciei a palestra deixando claro que não existe na África nenhum culto denominado candomblé como temos no Brasil. Os negros escravizados trazidos da África, carregaram em suas bagagens cultural e religiosa, a crença nos orixás. Um negro da Nigéria cultuava, por exemplo, Oxum, devido a um rio chamado Osun, que flui no sudeste do país. Já outro negro cultuava Xangô, que foi o quarto Rei de Oyó, de outra região, também na Nigéria. Unidos pelo processo de escravidão, se viram obrigados a cultivar seus diferentes deuses em conjunto, nascendo assim o que conhecemos hoje como Xirê dos Orixás, o ritual do candomblé brasileiro que cultua todos os orixás em um mesmo rito religioso. No candomblé também é comum se fazer uma cerimônia onde se convoca Exú para afastar os eguns (espíritos dos mortos) que o candomblé acredita ser prejudicial às suas cerimônias.

Já na umbanda o movimento é justamente o oposto. Os eguns temidos pelo candomblé são justamente os convocados a trabalhar na umbanda, sendo eles: os caboclos (espíritos dos indígenas brasileiros), os preto-velhos (espíritos dos negros escravizados), erês (espíritos das crianças), boiadeiros, baianos e marinheiros (todos espíritos de seres que já passaram pela terra). Religião nascida em 1908, no Rio de Janeiro, através da incorporação do Caboclo das Sete Encruzilhadas pelo médium Zélio Fernandino de Moraes numa sessão espírita, a umbanda aproxima-se muito mais do espiritismo de Alan Kardec, do que propriamente do candomblé, confundindo-se apenas por manter o culto aos orixás. A umbanda uniu a crença africana nos orixás, aos santos católicos através do sincretismo religiosos e absorveu práticas católicas como o uso de turíbulo e incenso nas cerimônias e os sacramentos religiosos como o batizado e o casamento.

 

O desconhecimento sobre as religiões de matrizes africanas ainda é tão grande, que muita gente acha que umbanda e candomblé são a mesma coisa. E a confusão piora quando pessoas que praticam uma dessas duas religiões, sem conhecer a outra, tentam expressar suas opiniões baseadas em “achismos”, sem fundamentação teórica ou experiência na religião.

Por eu ter sido iniciado no candomblé, raspado e catulado por Joãozinho da Goméia no Rio de Janeiro e ser sacerdote de umbanda, presidente da Federação Umbandista do Grande ABC e fundador da Casa de Umbanda Pai benedito de Aruanda em São Caetano do Sul, posso afirmar com convicção que as religiões são absolutamente distintas e cada uma guarda seus valores e fundamentos próprios. Diferentemente do que muitos pensam, umbanda tem sim seus fundamentos.

A oralidade é parte do aprendizado de ambas, contudo, no candomblé a experiência ancestral de sua linhagem espiritual é muito mais valorizada do que na umbanda. Muitos Templos de Umbanda surgem da experiência direta de seguidores com seus próprios Guias Espirituais, enquanto no candomblé o aprimoramento da experiência e a fundação de um Ilê (Casa de Axé) depende de processos ritualísticos específicos conduzidos por um Babá (Pai) ou Yá (mãe), nos quais o abian (aspirante da religião), torna-se yaô (filho de santo) após sua primeira iniciação e sobe degraus iniciáticos ao longo dos anos, até torna-se um Babalaô (ou guardião dos segredos de Ifá).

Com especificidades, rituais distintos e processos diferenciados de desenvolvimento espiritual, ambas as religiões professam o culto e o respeito à natureza, suas leis e seus guardiões (orixás), além da prática da caridade e do amor como balizadores do crescimento e desenvolvimento espiritual, sendo, portanto, caminhos distintos para se chegar ao mesmo fim: conexão com o sagrado e a evolução moral e espiritual do indivíduo.

Babalaô Ronaldo Linares

Texto publicado no Jornal Aldeia de Caboclo – Edição 74 – Outubro 2018

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